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9 de agosto de 2010

PRUDÊNCIA



Prudência em Aristóteles e a questão da sustentabilidade





"a prudência é de longe a primeira condição de felicidade. Nunca se deve cometer impiedade contra os deuses. Os orgulhosos vêem suas grandes palavras pagas pelos grandes golpes da sorte, e é apenas com os anos que aprendem a prudência". Antígona, Sófocles

Diz um provérbio erudito, que a sabedoria “reina”, mas “não governa”. Quem governa é a acção, a phronêsis platônica; a Prudência aristotélica, o agir deliberado, refletido.

Prudência é a acção ponderada, discutida, examinada, enfim, deliberada. Sim, o Estagirita (Aristóteles é da cidade de Estagira) desenvolveu o conceito de phronêsis legado por Platão e concebeu uma importantíssima teoria geral da acção, uma hermenêutica da existência humana enquanto agente no mundo e sobre o mundo. A phronêsis/Prudência – recta ratio agibilium – é virtude opinativa da alma: “daí que a Prudentia seja considerada a mãe (genitrix virtutum) e a guia (auriga virtutum) das virtudes”, diz Jean Lauand (FE-USP): “a virtude que realiza as demais”.

A acção prudente é cautelosa, sim. Mas, ao contrário do que pensa o senso comum, Prudência não é morosidade, aliás, não admite perda de tempo. É rápida e certeira pois, o kairós (o tempo, do grego, no sentido de agir bem, no momento certo) é inerente à virtude da Prudência. “Nem antes nem depois”, como Odisseu (Ulisses) orienta a seu filho Telêmaco, na Odisséia Homérica.

Tendo examinado cuidadosa e cautelosamente a questão que se apresente, ao Prudente urge agir de imediato. Mas examina, delibera. Alertando para a importância do kairós adequado à acção justa, o Pensador francês Pierre Aubenque afirma: “Não há justiça, se a decisão é tardia. O momento, o tempo, que permite que a justiça ocorra, é determinado pela Prudência”.
A virtude da Prudência se estabelece em circunstâncias bem peculiares. O saber científico, das ciências, esse saber “lógico” pode dispensá-la. Sobre todos os nossos conhecimentos já certos, como o saber dos seres em si e por si, imutáveis e eternos, tais quais a aurora e o crepúsculo, as estações do ano, os ciclos lunares, os matemáticos e geométricos, o saber das Formas puras (Idéia platônica), da nossa mortalidade enfim, coisas já assentadas, não se pondera, não se escolhe, não há o que discutir, alterar, portanto, não se delibera.

Só deliberamos (e aí sim, podemos orientar nossa acção pela Prudência) sobre “tudo o que é obra do homem”, como diz Aristóteles, o que está sujeito à mudança.

É por isso que não há como se atribuir à ciência meramente lógica, um valor moral, ela não é meritória, é o que é. Atentem que um mal uso da Prudência (que não é da alçada das ciências exatas) seria uma contradição pois, ser prudente – agir bem – não comporta o insensato.

Eis que a Prudência é outro gênero de conhecimento, é um saber moral porque há mérito em possuí-lo. Ela não existiria sem virtude moral. Em Aristóteles é a cisão do próprio mundo real que possibilita uma cisão paralela no interior da razão, não somente no interior da alma cognitiva (e seus modos de apreensão, exame, intelecção, cognoscência), mas da vida prática, contingente. Contingente é essa vida que levamos: instável, incerta, mutável, sujeita a atenuantes e agravantes, ao exame das circunstâncias, em suma, à deliberação.

A contingência fomenta, funda e alimenta a virtude da Prudência, faz dela sua morada pois, é justamente porque vivermos num mundo contingente, ou seja, sujeitos ao trágico, ao inimaginável, ao infortúnio, é no solo do acaso e do incerto que emerge a “auriga virtutum”, a boa ação, a virtuosa, posto que bem pensada. Conforme atesta Aubenque: “é a indeterminação dos futuros que faz do homem princípio; o inacabamento do mundo é o nascimento do homem”.

A Prudência é considerada a virtude par excellence porque somente através de seu exercício é que o seres humanos podem refletir e escolher. Eis que a virtude da Prudência é a de um Saber da práxis, da ação com a qual os homens se acostumam e incorporam, se habitual e constituem sua moral.

Nossas escolhas habituais, baseadas na valoração – ou não – de nossos semelhantes, na consideração (do latim siderio, estrelas) pelo “Outro”, constituirá nossa moral, estabelecerá nosso ETHOS.

Ao revelar o ETHOS humano, a virtude da Prudência fundamenta sua incontestavelmente notória importância. Nosso planeta (habitat), como um todo, subordinado aos nossos hábitos (modus vivendi e modus operandi, passíveis de vir a ser constituídos por virtudes ou vícios) explicita nosso ETHOS.

O filósofo grego pré-socrático Heráclito é quem nos dá o mais antigo testemunho da palavra phronêsis (Prudência), ao alertar que, na multidão, cada um, ao invés de compreender o que é comum, “se deixa viver como se tivesse sua própria inteligência”. O que ele quer dizer, segundo Aubenque, é que os mortais participam, bem ou mal, de um lógos que os ultrapassa e a falta mais grave do homem é opor sua individualidade ao universal no qual se insere".

Se o melhor absoluto se revela impossível, dadas as circunstâncias, busquemos o melhor possível, nos ensina Aristóteles. Deus não delibera, não precisa; tampouco o animal detém poder para examinar suas possibilidades. Somente o homem é chamado à ação: “Torna-te o que és”, roga uma antiqüíssima inscrição no frontispício do oráculo de Apolo, na cidade grega de Delphos.

Segundo Aubenque, “A deliberação representa a via humana, ou seja, mediana, aquela de um homem que não é completamente sábio nem inteiramente ignorante [como o daimon intermediário que vimos no artigo anterior, O Banquete sobre o Amor, de Platão], num mundo que não é, nem totalmente previsível, nem totalmente imprevisível, o qual, no entanto, convém ordenar usando as mediações claudicantes que ele nos oferece”.

Como Aristóteles, sabemos que a deliberação, o exame, cujo conceito é emprestado da prática política, não basta para constituir a virtude, pois a deliberação não diz respeito ao fim, mas aos meios; em Aristóteles, a phronêsis torna-se Prudência, descola-se do “Ideal” platônico como télos (finalidade, propósito), não diz mais respeito ao Bem, mas ao útil. Eis que a deliberação enquanto tal, pode ser posta a serviço do mal, da desmedida, a hýbris grega.

Também no frontispício do Oráculo do deus da harmonia, se lê: “Conhece-te a ti mesmo!” E conhecerás o Universo? E saberás que és um deus? Ou... E constatarás que és mortal? Sejamos Prudentes.
(Luciene Félix)
Professora de Filosofia e Mitologia Greco-Romana




Saiba mais;
Aubenque, Pierre – A Prudência em Aristóteles – Trad. Marisa Lopes. São Paulo, SP. Discurso Editorial, 2003.
Lauand, Jean – Saber Decidir: a Virtude da Prudência. http://hottopos.com/notandum
Lauand, Jean – Filosofia, Linguagem, Arte e Educação. Coleção Humanidades – ESDC. Factash Editora, 2007.


6 comentários:

  1. "Os homens prudentes sabem tirar proveito de todas as suas ações, mesmo daquelas a que são obrigados pela necessidade."
    (Nicolau Maquiavel)

    Prudência é agir com cuidado, com sensatez.
    Ser prudente é não usar os pés pelas mãos, é refletir com sabedoria, é agir com equilíbrio.
    Há uma intrínseca equivalência entre prudência e sapiência.
    Ambas se entrelaçam, são harmônicas. Acordadas para agir!!!

    Cindy

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  2. Sabes minha amiga, eu tenho uma certa dificuldade em comentar pensamentos de filósofos extemporâneos, porque na maioria das vezes não concordo com eles....Eu penso que as suas teorias, em grande parte, não se poderão aplicar aos dias de hoje. O mundo mudou e temos que acompanhar a sua mutação. Neste mundo de hoje, não há tempo para pensar muito, pois corremos o risco de perder a oportunidade.
    Desculpa este meu comentário, mas é aquilo que eu penso.
    Beijinho grande querida amiga

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  3. Bom texto. Enquanto tentativa de dissecação heuristica da intemporal questão da Prudencia não apresenta nem lacunas atrozes, nem novas e ousadas propostas vanguardistas de reimterpretação da Prudencia. Existe um ,talvez intencional, disperso polvilhar de fontes e autores vários, mas, mantenho e ressalvo as palavras com que comecei, e com elas acabo este paragrafo: Bom Texto.

    Temáticas filosoficas são algo comuns na blogosfera. Variam desde lamacentos novelos de novelas com 2 ou 3 "nitches" lá pelo meio, ou como neste caso com o qual eu estou para aqui a perder o meu tempo, textos que pelo menos gastam letras e pixels a lidar com alguma coesão com um conceito qualquer.

    Um subito abalo de honestidade impele-me no entanto a confessar: As palavras "Prudência em Aristóteles e a questão da sustentabilidade" apanharam o meu olho céptico. O olho flamejou e ateou o homonimo da esquerda. Neuronios travestiram-se de piratas e desnterraram recordações minhas de varios humanoides que fracassavam, durante e após, debeis tentativas de prafrasear Nietzche para justificar os seus lifestyles de masturbação mórbida, e as suas "claro-que-sim-amor" promiscuidades ("JUjU ONtEM TIVE 1 NOite COM o JOAO K FOI O MAAXXXIIMMOO!!" - Eu sei que soa familiar)

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  4. Os fahrenheits aqueceram também o puto curioso que há em mim e frase após frase prossegui com a penosa leitura destes 18 (leia-se "dezoito" para os matemáticamente ineptos) longos paragrafos. Foi quando dei por acabada esta chata jornada que me deparei com este estranho fenomeno...comecei a sentir um grande afecto por este texto. Aliás a nossa relação de verdade e companheirismo continua a crescer saudavelmente, tanto que, agora o trato carinhosamente por Zé.

    O texto, quer dizer, O Zé (desculpem mas a relação ainda é recente) não nos traí na sua essencia e é nos fiel do inicio ao fim. Propoem se a ter como objecto de reflexão a Prudencia. E é isso que faz. E devo-vos relatar que nesta actividade o Zé tem várias qualidades.

    De mão esquerda dada ao Zé e de mão direita no rato clico em "2 comentários". Leio-os. Ok. Um comentário perfeitamente legitimo: A superlativa absoluta "cidissima" comenta que ah e tal sim senhor em relação ao Zé, e também aproveita para corromper uma conhecida expressão popular portuguesa, mas isso a mim não me ofende, nem a mim nem ao Zé! Bem talvez ofenda algum idoso mais erudito em questões do vernáculo tradicional português mas isso não posso afirmar com exactidão. O que me ofende, a mim, e ainda mais ao Zé, é a "ANA PAULA" (Nome de utilizador todo em maiusculas? Será mais um caso de nomenclo-arrogancia?)

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  5. Olá Amiga Ana.
    Pela parte que me toca a filosófia é uma questão essencial na minha vida. Ponho a mim mesma dúvidas e questões e sirvo-me dos pensamentos filosofico, para desenvolver o meu próprio sentido crítico e visão das coisas, embora concordando mais com uns do que com outros. Mas existem questões de fundo que por muitas mutações que ocorram, mesmo a vários níveis, os pensamentos da antiguidade são uma referência presente e muito actual. São tão necessárias e úteis aos dias de hoje como o foram nas épocas passadas, servindo de base a várias ciências, nomeadamente ao Direito. Por exemplo aquilo que preocupava o humanidade desde os tempos imemoriais como por exmplo; "qual o sentido da minha vida?", "qual o significado da vida?"," o que é a verdade?", e assim por diante... são questões do ontem e do hoje. As suas origens são os alicerces fundamentais e intemporais. As suas raizes sempre foram uma fonte de profunda de reflexão. "Obrigando" o homem até hoje a pensar sobre a complexidade das coisas do mundo e de si mesmo. No que diz respeito à prudência ela não significa a demora e a lentidão, mas sim a necessidade do homem ser esclarecido, saber agir, saber pensar com prontidão, ter acções adequadas... O filosofar é uma tarefa que está próxima das acçoes, dos pensamentos, dos conhecimentos e das motivações humanas. O que se passa em geral é que os homens vivem no contexto do senso comum e não se dão conta da sua actuação julgando que os acontecimentos de hoje e as circunstâncias nos afastam das origens. O que de facto houve, e há, é uma politica de afastamento do homem à filosofia, por varias razões, contribuindo para que esta esteja adormecida na maioria das mentes, porque é mais fácil lidar com sociedades anestesiadas com fantasias, do que lidar com homens capazes de terem consciência de si e do mundo.

    Um beijinho
    Elly

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  6. Olá Denunciador, boa noite....
    A tua sorte é que te conheço,,,,eheheh!!!(desnaturado) e em nome da nossa amizade e o respeito que nos une, não me quero zangar contigo.Como tenho educação e respeito pela tua originalidade,( mas vê se não escreves com pressa, pq mereço textos no teu melhor, pq sei a qualidade do teu estilo) publiquei os teus comentários. Mas confesso que esperava algo sem sátira. Um beijinho e volta mais vezes, mas vem com cuidado.... e vê onde vais pôr o pé!!!

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